Líder católico ucraniano: “Mundo Russo”, uma ideologia vestida com roupagem religiosa

Por John Burger

Numa mensagem de vídeo dirigida à sua alma mater em Roma, o líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana pediu à academia católica que estude as ambições neoimperiais da Federação Russa.

“Peço-lhes que não fiquem em silêncio”, disse, no dia 19 de outubro, o arcebispo-mor D. Sviatoslav Shevchuk, de Kyiv, num relatório por ocasião do início do novo ano académico na Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, em Roma. O arcebispo Shevchuk, que se doutorou em teologia moral no Angelicum, em 1999, falou sobre a ideologia do “mundo russo”, que ele afirma estar a ameaçar não apenas a sua nação, mas também as relações políticas e ecuménicas internacionais. 

A teoria do mundo russo, ou Russkiy Mir, afirma que existe uma “esfera ou civilização russa transnacional, chamada Santa Rússia ou ‘Santa Rus’, que inclui a Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia (e às vezes Moldova e Cazaquistão), assim como russos étnicos e pessoas de língua russa em todo o mundo”, de acordo com uma declaração elaborada pelo Centro de Estudos Cristãos Ortodoxos na Universidade de Fordham. “Sustenta que este ‘mundo russo’ tem um centro político comum (Moscovo), um centro espiritual comum (Kyiv, como a ‘mãe de todos os Rus’), uma língua comum (o russo), uma Igreja comum (a Igreja Ortodoxa Russa, Patriarcado de Moscovo) e um patriarca comum (o Patriarca de Moscovo), que trabalha em ‘sinfonia’ com um presidente/líder nacional comum (Putin) para governar este mundo russo, bem como defender uma comum espiritualidade, moralidade e cultura próprias.”

Um “verdadeiro genocídio”

No seu discurso , o arcebispo Shevchuk acusou a Rússia de estar a realizar um “verdadeiro genocídio do povo ucraniano”. No início da invasão do país por Vladimir Putin em 24 de fevereiro, a agência de imprensa russa RIA Novosti publicou o que Shevchuk chamou de manual sobre o genocídio de ucranianos. 

“Este é um programa flagrante de eliminação completa da nação ucraniana enquanto tal, que o historiador Timothy Snyder [da Universidade de Yale] descreveu como um dos documentos genocidas mais abertos”, disse Shevchuk. “Este documento pede claramente a eliminação do estado ucraniano e do povo ucraniano.”

“Soldados russos aderem a cada letra deste manual para a destruição de ucranianos”, disse ele.

Disse ainda que é “um verdadeiro choque para nós ver a justificativa cristã dessa ideologia assassina, testemunhar a completa harmonia entre as autoridades do Kremlin e a Igreja Ortodoxa Russa. Desde p Patriarca Kirill aos padres que justificam metodicamente esses crimes, vemos como a fé cristã se torna uma ferramenta ideológica para promover o nazismo russo. A justificativa e o apelo à guerra por parte da Igreja Ortodoxa Russa lembram cada vez mais a doutrina do Estado Islâmico. Aliás, os líderes desta Igreja citam-na literalmente, embora a cubram de roupagem cristã. Recentemente, vemos até mesmo os seus clérigos em paramentos litúrgicos com um lançador de granadas nas mãos disparando no campo de batalha.”

líder católico ucraniano falou sobre a sua experiência pessoal do que viu nos territórios anteriormente ocupados por soldados russos. 

“É hoje óbvio para todos nós que o mal que chegou à nossa terra tem uma componente ideológica claro e um nome específico – o mundo russo”, disse ele. 

A morte em números

O Arcebispo-mor de Kyiv citou estatísticas de organizações internacionais sobre a atual situação humanitária na Ucrânia. Desde o início da invasão russa, 422 crianças foram mortas e 805 crianças ficaram feridas. De acordo com a Missão de Monitorização dos Direitos Humanos da ONU, 6.221 civis foram mortos e 9.371 civis ficaram feridos. De acordo com o UNICEF na Ucrânia, das 3,2 milhões de crianças que foram deslocadas pela guerra, cerca de 1,6 milhão de crianças correm o risco de viver no limiar da fome e correm risco de insegurança alimentar. Os ataques à infraestrutura hídrica e a falta de energia deixaram cerca de 1,4 milhão de pessoas na Ucrânia sem acesso à água. Outros 4,6 milhões têm acesso limitado.

“Esses dados, mas antes de tudo a experiência pessoal da guerra que vivemos, mostram que não estamos a falar de uma guerra comum de um país contra outro, muito menos de uma operação militar, mas de um verdadeiro genocídio do povo ucraniano e dos terríveis crimes contra a humanidade cometidos por soldados russos”, afirmou Shevchuk.

“Se o mundo moderno não condenar e impedir o genocídio do povo ucraniano, amanhã teremos ainda mais vítimas, como aconteceu no passado com o nazismo e o comunismo”, afirmou o arcebispo. Além disso – continuou – a ideologia do mundo russo destrói os fundamentos não apenas do direito internacional e da coexistência pacífica entre os povos, mas também da confiança na fé cristã num mundo secularizado.

“Convido-vos a estudar e a elaborar uma avaliação intelectual das causas e consequências da guerra na Ucrânia”, disse ele à sua audiência académica, “com atenção especial à ideologia do ‘mundo russo’, que está a tornar-se um enorme desafio à credibilidade da mensagem cristã e da verdade objetiva, uma grave ameaça ao direito internacional e à convivência pacífica entre os povos. Deste modo, apelo a todos os académicos do mundo inteiro.”

Fonte: aleteia.org em 23 de outubro de 2022 (tradução nossa).

Qual é o problema de Francisco em relação aos católicos da Ucrânia?

Foto: Vatican Media.

No oitavo consistório presidido por Francisco, que teve lugar na tarde deste sábado, 27 de agosto, o grande ausente nas escolhas papais foi, mais uma vez, D. Sviatoslav Shevchuck, o líder da maior igreja católica oriental. Este facto, como refere o Pe. Raymond J. de Souza, no National Catholic Register, representa um insulto à Ucrânia, numa altura em que o povo ucraniano é vítima de uma sangrenta agressão externa, ordenada pelo ditador assassino Vladimir Putin, com o imprimatur do líder da cismática Igreja Ortodoxa Russa.

Desde o início da agressão russa, o líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana tem exercido uma ação pastoral muito intensa, com mensagens videográficas diárias de apoio ao povo ucraniano, em que condena, de forma clara e direta, os crimes dos invasores no seu país.

O arcebispo-mor D. Sviatoslav Shevchuck, nascido nos horrores do comunismo soviético, especialista em teologia moral e fluente em várias línguas, seria um forte candidato ao trono de Pedro num futuro conclave. No entanto, nem o seu passado pastoral comum com cardeal D. Bergoglio na Argentina foi suficiente para convencer Francisco nos sucessivos consistórios, em que tem demonstrado maior preferência por bispos progressistas e até homossexualistas.

A segunda maior das igrejas católicas continuará, deste modo, sem qualquer representação no colégio cardinalício, como tem acontecido desde 2017, após o falecimento do cardeal D. Lubomyr Husar. É desta forma que o Vaticano reconhece séculos de fidelidade dos católicos ucranianos confirmada pelo sangue de tantos mártires.

A Rússia e a liderança da igreja oficial do regime putinista agradem…

“Precisamos de tolerância zero para com Putin”. Entrevista exclusiva ao líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana

Foto: Secretariado do Arcebispo-mor de Kyiv-Halyc.

Por Matteo Matzuzzi

Sviatoslav Shevchuk: “Isso na Ucrânia não é um conflito, é um crime contra a humanidade, há um criminoso cruel e há uma vítima inocente”. A ideologia do “mundo russo”, o papel da Igreja Ortodoxa em Moscovo, a destruição total nas aldeias e cidades: “O mundo que existia antes de 24 de fevereiro não existe mais. Nem Rússia, nem Ucrânia, nem a Europa Ocidental “

Alguns dizem que está a ocorrer um conflito na Ucrânia, os media ocidentais falam do conflito russo-ucraniano. Não, na Ucrânia não há conflito, porque o conflito sempre evoca um paradigma simétrico: dois grupos, um contra o outro, cada um com as suas próprias razões. Isso não é a realidade que se vê na Ucrânia, não há duas razões e não há verdade no meio. Aqui há um criminoso, aquele que ataca. E aqui está a sua vítima”. Sua Beatitude Sviatoslav Shevchuk, líder e pai da Igreja Greco-Católica Ucraniana, da qual também é arcebispo-mor, é claro na sua avaliação da tragédia que está a ocorrer na Europa Oriental. Nesta entrevista exclusiva concedida ao Foglio, Shevchuk descreve cinco meses de guerra, o que vê todos os dias com os seus próprios olhos e denuncia certos “mal-entendidos” ocidentais, a tendência de encontrar alguma boa razão (ou pelo menos explicável) na agressão ordenada por Moscovo.

Sua Beatitude, no Ocidente muitas vezes temos dificuldade em entender o motivo desta guerra. Talvez estejamos a usar critérios errados, talvez não entendamos completamente a ideologia que levou Vladimir Putin a atacar a Ucrânia. Fala-se da “ideologia do mundo russo”. Qual é a sua opinião sobre o assunto? 

“Há muitas opiniões e debates sobre os motivos por que a Rússia atacou a Ucrânia em grande escala, trazendo destruição, sofrimento e morte ao nosso país. Não gostaria de entrar em detalhes nestes temas sofisticados e incompreensíveis para o nosso povo, mas posso falar como testemunha ocular de tudo o que vi pessoalmente, mas sobretudo como pastor das almas em sofrimento. A Ucrânia é vítima da agressão russa desde 2014, mas desde 24 de fevereiro, nós, ucranianos, entendemos que não se trata apenas de uma guerra de um país contra outro, muito menos de uma simples “operação militar”. Visitando as cidades ucranianas que foram ocupadas pelo exército russo e depois libertadas, vi a tragédia das valas comuns de civis, ouvi vários testemunhos de vítimas de violação perpetrados por soldados russos, ficamos abalados com o testemunho excruciante dos cadáveres executados e abandonados nas ruas das nossas cidades. Infelizmente, estes não são casos únicos, vemos as ações sistemáticas do exército de Putin ao povo inocente da Ucrânia. Foram encontradas valas comuns em Bucha, Mariupol, Makariv e provavelmente haverá outras; houve muitos casos de tortura em civis, incluindo crianças. Já morreram cerca de 300 menores às mãos das tropas russas. Basta pensar que perto da velha cidade de Chernihiv, considerada pela Igreja Ortodoxa como património histórico, o exército russo construiu uma câmara de tortura! Torturaram pessoas das aldeias de Yahidne e Lukashivka no edifício da igreja. Muitos corpos mutilados foram encontrados à volta da igreja. Hoje é cada vez mais evidente, pelo menos para nós na Ucrânia, que a guerra russa contra a Ucrânia tem uma base ideológica clara chamada ideologia do mundo russo.”

Pode explicar-nos em que consiste?

“Para responder a essa pergunta, gostaria de me referir à contribuição de Timothy Snyder, o conhecido estudioso da Shoah no território da antiga União Soviética. Ele mesmo reagiu imediatamente à publicação, na página russa Ria Novosti, de um documento que explicava as razões e ordens dadas aos soldados russos para a sua missão na Ucrânia. Uma declaração intitulada ‘O que a Rússia deve fazer com a Ucrânia’, redigida por Timofey Sergejtsev, explica o que Moscovo entende por desnazificação, um dos objetivos da guerra na Ucrânia proclamado por Putin. Convido a comunidade europeia a ler atentamente esse texto para compreender em que consiste a ideologia do mundo russo. Timothy Snyder apelidou-o de manual do genocídio russo. Ele escreve: o manual russo é um dos documentos mais abertamente genocidas que já vi. Além disso, gostaria de salientar que muitos importantes teólogos das Igrejas Ortodoxas de todo o mundo condenaram a ideologia do ‘mundo russo’ como uma heresia totalitária do fundamentalismo religioso etnofilético. E um número importante de políticos relevantes identifica-a como uma forma de nacionalismo radical que pretende espalhar-se pelo mundo. A ideologia do ‘mundo russo’ nega ao povo ucraniano o direito de existir, como a ideologia da Alemanha nazista fez com o povo judeu. Desta forma, propõe-se uma nova ideologia autoritária que, nascida na Rússia graças à propaganda massiva, encontra – mesmo que pareça estranho – seguidores no Ocidente. Posso apenas testemunhar que os invasores estão a cometer, literalmente, crimes de guerra conforme prescrito no texto ‘O que a Rússia deve fazer‘. Para a população civil, tudo isso representa uma crueldade sem precedentes”. 

Recorre-se a justificações políticas e geopolíticas para explicar o que aconteceu, contando os tanques russos que entraram na sua terra natal. Mas há também, digamos, um elemento cultural que levou à guerra? Por que razão a Ucrânia é tão assustadora para Moscovo?

“A história do povo ucraniano é uma história que faz parte da história europeia, somos um povo europeu que na sua história moderna reafirmou a sua escolha a favor dos princípios e ideais da comunidade europeia. Infelizmente, na Rússia, hoje podemos ver uma síntese entre a mentalidade soviética e a imperial. A Ucrânia é hoje vítima dessa reconstrução perversa das fronteiras da ‘grande Rússia’. Tentam sempre apresentar a sociedade ucraniana como aquela que está sob a influência da imoralidade ocidental. Precisamente daí surge uma intolerância para com tudo ‘que não é nosso’, provocando e justificando o uso da violência para eliminar todos os ‘contaminados’. Uma imagem desse ‘Ocidente coletivo’ que deve ser combatido está hoje a ser projetada na Ucrânia. Para evocar uma memória histórica desse inimigo para fazer a guerra usa-se a palavra ‘nazismo’, que perdeu todo o sentido original, sendo hoje geralmente aplicada a todas as coisas ocidentais’ identificadas na identidade de um povo. Por isso, um ucraniano é referido como um herege nazi. É cada vez mais evidente que a Rússia entrou em conflito cultural não apenas com a Ucrânia, mas com tudo o que definimos como civilização ocidental. O processo de zombificação da população russa pelo regime do Kremlin produziu um tipo de sociedade antropológica muito perigosa. Repare como as valas comuns na Ucrânia se tornam motivo de alegria para muitas pessoas na Rússia. Sem compaixão, sem raciocínio sobre as razões desta guerra absurda. Infelizmente, até mesmo ao mais alto nível da Igreja Ortodoxa Russa. Assistimos de facto a uma justificação cristã da guerra russa contra a Ucrânia e à glorificação dos crimes de guerra e da ideologia da violência.”

Vimos os corpos nas valas comuns com as mãos amarradas nas costas. Os cadáveres nas ruas. Acha que há razões para se falar de genocídio do povo ucraniano?

“Não encontro outras explicações. E as razões proclamadas pelo presidente russo não têm fundamento. O verdadeiro objetivo da agressão russa é a aniquilação do povo ucraniano. Isso é confirmado tanto pelos discursos ideológicos do próprio Putin, que tantas vezes fazem referência à história ucraniana, quanto pelos crimes de guerra cometidos pelos seus soldados na nossa terra. Efetivamente, é difícil considerar isto apenas uma guerra. Desde o primeiro dia da invasão russa à Ucrânia, temos visto crimes de guerra contínuos que não param nem de dia nem de noite. Alguns dizem que há um conflito a acontecer na Ucrânia. De facto, vejo que, ultimamente, os media ocidentais falam do conflito russo-ucraniano. Não há conflito na Ucrânia. Porque o conflito sempre evoca um paradigma simétrico de discurso, conflito significa que existem dois grupos, cada um deles tem a sua própria razão e estão em conflito. E quem busca a verdade ou quer mediar o conflito sempre escuta um lado, o outro lado, e intuitivamente diz que a verdade está no meio. Isso significaria encontrar uma solução para o conflito. Mas, na verdade, não existe esse tipo de realidade na Ucrânia. Não existem duas razões e não existe uma verdade média, mas existe um criminoso, aquele que ataca, e existe a sua vítima. Não se pode dizer que haja algum tipo de conflito de interesses porque, nesse caso, colocaríamos no mesmo patamar o criminoso e a sua vítima. Portanto, também neste caso, como Igreja, devemos declarar ‘tolerância zero’ para com o criminoso. Acho que precisamos de parar de falar do conflito para passarmos a falar do crime de guerra na Ucrânia. Devemos parar de tentar defender os interesses do agressor e mediar os interesses do agressor e do agredido porque isso, de facto, não corresponde à realidade e à verdade, a verdade objetiva dos factos ocorridos. Tolerância zero para com o uso da violência… Se o interesse de um Estado provoca a guerra e está a condenar à morte um povo de mais de 40 milhões, então não é mais interesse, é crime. As razões que podem explicar ou justificar essa agressão não podem ser aceites pela civilização de hoje. Na Ucrânia está a ser cometido um crime contra a humanidade, existe um criminoso cruel e existe uma vítima inocente. Por isso, é também importante encontrar os termos certos para descrever tudo o que acontece na Ucrânia, uma vez que a palavra ‘guerra’, com o significado que temos em mente, não é mais a que pode descrever esta tragédia. Se alguém tiver alguma dúvida, convido-o a vir à Ucrânia e ver por si mesmo.”

O seu povo conheceu imensas tragédias, penso apenas em Holodomor dos anos 30, também descrito por Vasiliy Grossman, que falou da dor das mães obrigadas a ver os seus filhos morrer de fome. No entanto, os ucranianos sempre se levantaram. Qual é a força do seu povo?

“Acho que não podemos explicar numa só frase em que consiste essa força. De acordo o meu entendimento pessoal e de acordo com a experiência de como se vive a guerra nessas condições, vem-me à mente o nosso filósofo Hryhoriy Skovoroda (1722-1794), que disse – quando a rainha imperatriz Catarina o quis perto de si – que ‘a flauta e as ovelhas são mais preciosas para mim do que a coroa do rei’. Graças à sua filosofia, ele foi capaz de compreender o modo de vida do nosso povo. Ou seja, são as pessoas que acreditam na ressurreição que, através da sua cultura e filosofia nacional, veem que a vida humana é maior do que somente a vida terrena. No túmulo de Skovoroda estão as suas palavras: ‘O mundo queria me agarrar, mas não conseguiu’. Apenas isso, a fé na ressurreição e o amor à liberdade foram sempre a força do nosso povo, não para renunciar, mas para se levantar e seguir em frente. Há outro ditado popular: ‘Pensavam que seríamos enterrados para sempre, mas acabámos por ser uma semente que dá vida nova’. Talvez, mesmo agora que nosso povo está a lutar, ele está a levantar-se depois de tantas ondas de genocídio precisamente porque o Senhor nos faz ressuscitar.”

Diante de um Ocidente que muitas vezes se preocupa em discutir sobre todas as fronteiras, tréguas e mediações, o que tem vontade de dizer como pastor?

“Acho que temos que recomeçar, mas respeitando a dor da vítima. Ouçam o clamor das pessoas que estão condenadas à morte. Isso levar-nos-á a entender como devemos hoje construir a convivência entre povos e nações no terceiro milénio, porque sabemos que todas as construções mentais humanas são relativas. Se partirmos do bem-estar ou dos interesses das potências deste mundo, e se os interesses económicos prevalecerem sobre a vida humana, sobre o seu preço inexorável, então, como humanidade, estaremos acabados. Mas se partirmos do respeito pela vida humana, fazendo dela uma estratégia, uma política, até uma pastoral, começaremos pela preocupação de proteger os mais fracos, então poderemos sobreviver e reconstruir uma comunidade, mesmo a nível internacional, mais justa do que a que temos agora.”

O que viu ao visitar as aldeias devastadas por estes meses de guerra? Que emoções sentiu diante do massacre?

“A guerra não é um jogo. Parece-me que, às vezes, no Ocidente, com a palavra ‘guerra’ em mente, estão a ser feitos jogos eletrónicos. Infelizmente, aqueles que planeiam guerras nunca souberam o que realmente é uma guerra. Mas vendo a realidade da guerra na Ucrânia, estamos a lidar com a destruição total. Cidades inteiras e aldeias tornaram-se cidades e aldeias fantasmas. Também as valas comuns sem fim. E surge a pergunta: podemos viver nessas condições? O mundo quer sobreviver ou planeia a guerra? E outra pergunta: sabemos que um dia de guerra contra a Rússia custa quatrocentos milhões de dólares. Somente um dia. Então, quem é aquele que investe na morte com a mente diabólica? E se com esse dinheiro construíssemos, salvássemos vidas, não faríamos o futuro melhor na própria Rússia? E se esse dinheiro fosse investido justamente para melhorar as condições de vida dos milhões de cidadãos daquele país? Em vez de gastar tão facilmente para matar os outros… Isso significa que a guerra é sempre um crime, é sempre uma loucura, uma loucura. Quanto mais difícil, mais evidente isso se torna. A guerra travada na Ucrânia é um crime contra a humanidade.”

Você acha que quando a guerra acabar, as relações entre as Igrejas presentes na Ucrânia também mudarão?

“Até agora todos nós mudámos. Talvez nem todos tenham entendido ainda que o mundo que existia antes de 24 de fevereiro deste ano não existe mais. Nem a Rússia, nem a Ucrânia, nem a Europa Ocidental, nem os outros países. Num clique, mudámos para sempre. E se as relações entre os homens mudarem, obviamente as relações entre o homem e a sociedade, o homem e qualquer comunidade mudarão, e as relações entre as Igrejas também mudarão. Se falamos das relações entre as Igrejas na Ucrânia, devo dizer que essas relações melhoraram muito, porque estamos unidos como nunca, precisamente em nome da defesa da vida humana. Vemos que todos os particularismos, mesmo todos os interesses particulares egoístas (que às vezes até as Igrejas cultivam) são agora colocados em último lugar porque a questão existencial – como sobreviver junto com nosso povo – agora está em primeiro. Por isso colaboramos. Talvez depois venha também o nível ecuménico, doutrinário, uma reflexão que partirá dessa experiência existencial, mas quando se trata de organizar, por exemplo, um corredor verde para evacuar e salvar a vida de pessoas que estão em perigo iminente de morte, então todos se unem: católicos, ortodoxos, protestantes, muçulmanos e judeus. Colaboram precisamente para se salvar e para salvar os outros.”

Diante das valas comuns, todos rezam juntos…

“Exatamente, porque ali temos todos os nossos paroquianos, os membros das nossas comunidades, os familiares. Esta guerra revela, antes de tudo, que somos todos humanos e só depois pertencemos a uma certa religião. Humanidade, a natureza humana é a base que nos une. Quanto mais humanos nos tornarmos, mais unidos seremos. Mas se cairmos nessa armadilha da desumanização, serão sempre encontradas novas divisões.”

Fonte: ilfoglio.it em 26 de julho de 2022 (tradução nossa).

Bispo mais jovem do mundo é ucraniano

Enquanto uma grande parte do Ocidente, cheio da “nova misericórdia”, concentra todos os seus esforços a tentar encontrar formas de integrar o adultério, o homossexualismo, o luteranismo, a teologia da libertação e outros exotismos na nova pastoral da Igreja, o Leste continua a evidenciar uma grande vitalidade. No passado dia 21 de junho, na Ucrânia, foi ordenado o novo bispo católico de Rito Latino, D. Edward Kava, que, com apenas 39 anos de idade, é hoje o mais jovem bispo católico do mundo.

novo.bispo.ucrânia
D. Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja Greco-Católica Ucraniana, na Basílica Latina Metropolitana de Lviv, na Ucrânia, dá a sua bênção ao novo bispo ucraniano de Rito Latino, in  sítio oficial da Igreja Greco-católica Ucraniana, 22/06/2017

 

Eu acho que toda a Igreja Católica na Ucrânia se sente hoje amada. Este evento, que se realiza hoje em Lviv e que terá lugar em Kiev no sábado, faz-nos sentir que se abriu uma nova página na história da Igreja Católica na Ucrânia. A página que será marcada pelo amor. O amor não é apenas de Deus para nós, mas o amor fraterno entre nós, entre os dois pulmões da Igreja – o Oriental e o Ocidental”, afirmou o Patriarca da Igreja Greco-Católica Ucraniana.

(Sua beatitude, D. Sviatoslav Shevechuk insítio oficial da Igreja Greco-católica Ucraniana)

São palavras sábias, estas do líder da maior igreja católica oriental. Os dois “pulmões” fazem parte do mesmo corpo, neste caso a Igreja Católica, não pode estar um dentro outro fora. O ecumenismo jamais será verdadeiro se “confiar em Buda” e outras divindades pagãs. O ecumenismo verdadeiro deve procurar a unidade em torno da Fé verdadeira, trazendo para dentro da única Igreja fundada por Cristo todos aqueles que se encontram afastados. A conversão e o proselitismo são, deste modo, incontornáveis.

Igreja Católica significa Igreja Universal, inclui diferentes ritos e tradições, mas possui uma única Fé e uma única moral inegociáveis porque foram reveladas pelo próprio Deus.

Basto 6/2017