Cardeais divulgam carta dirigida ao Papa

Quatro importantes cardeais resolvem tornar pública a missiva dirigida ao Santo Padre com as questões às quais o Santo Padre se negara a responder. Em causa estão um conjunto de esclarecimentos que os cardeais consideram necessários, da parte do Santo Padre, de modo a clarificar a confusão gerada em torno de alguns dos aspetos mais controversos que emanaram da interpretação do capítulo oitavo da exortação apostólica Amoris Laetitia. As suas preocupações prendem-se com o facto de se constatarem, atualmente, no seio da Igreja Católica, uma grande disparidade de interpretações, entre as quais as que se opõem ao infalível magistério da Igreja.

De acordo com a lógica do funcionamento da Igreja Católica, quando surgem problemas pastorais, é normal recorrer-se ao Papa para ajudar a resolvê-los. Neste sentido, a carta visava somente obter a ajuda do Santo Padre na clarificação das “dúvidas que são causa de desorientação e de confusão”.

Questões colocadas:

1.    Pergunta-se se, de acordo com quanto se afirma em “Amoris laetitia”, n. 300-305, se tornou agora possível conceder a absolvição no sacramento da Penitência, e, portanto, admitir à Sagrada Eucaristia, uma pessoa que, estando ligada por vínculo matrimonial válido, convive “more uxorio” com outra, sem que estejam cumpridas as condições previstas por “Familiaris consortio”, n. 84, e entretanto confirmadas por Reconciliatio et paenitentia, n. 34, e por “Sacramentum caritatis”, n. 29. Pode a expressão “[e]m certos casos”, da nota 351 (n. 305) da exortação “Amoris laetitia”, ser aplicada a divorciados com uma nova união que continuem a viver “more uxorio”?

2.    Continua a ser válido, após a exortação pós-sinodal “Amoris laetitia” (cf. n. 304), o ensinamento da encíclica de São João Paulo II “Veritatis splendor”, n. 79, assente na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja, acerca da existência de normas morais absolutas, válidas sem qualquer excepção, que proíbem actos intrinsecamente maus?

3.    Depois de “Amoris laetitia” n. 301, pode ainda afirmar-se que uma pessoa que viva habitualmente em contradição com um mandamento da lei de Deus, como, por exemplo, aquele que proíbe o adultério (cf. Mt 19, 3-9), se encontra em situação objectiva de pecado grave habitual (cf. Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Declaração de 24 de Junho de 2000)?

4.    Após as afirmações de “Amoris laetitia”, n. 302, relativas às “circunstâncias atenuantes da responsabilidade moral”, ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II “Veritatis splendor”, n. 81, assente sobre a Sagrada Escritura e sobre a Tradição da Igreja, segundo o qual: “as circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um acto intrinsecamente desonesto pelo seu objecto, num acto ‘subjectivamente’ honesto ou defensível como opção”?

5.    Depois de “Amoris laetitia”, n. 303, ainda se deve ter como válido o ensinamento da encíclica de São João Paulo II “Veritatis splendor”, n. 56, assente sobre a Sagrada Escritura e sobre a Tradição da Igreja, que exclui uma interpretação criativa do papel da consciência, e afirma que a consciência jamais está autorizada a legitimar excepções às normas morais absolutas que proíbem acções intrinsecamente más pelo próprio objecto?

(Tradução publicada no blogue Fratres in Unum no dia 14/11/2016)

O Santo Padre optou por não responder aos cardeais.

4-cardeais

O Santo Padre decidiu não responder. Interpretamos esta sua soberana decisão como um convite para continuar a reflexão e a discussão, de modo sereno e respeitoso.
Por essa razão, damos agora a conhecer a nossa iniciativa a todo o povo de Deus, fornecendo para isso toda a documentação pertinente.

Esperamos que ninguém interprete este facto nos termos do esquema “progressistas-conservadores”; seria um engano. Estamos profundamente preocupados com o verdadeiro bem das almas, que é a suprema lei da Igreja, e não em fazer avançar dentro da Igreja um qualquer tipo de política.

Esperamos também que ninguém, julgando injustamente, nos tenha na conta de adversários do Santo Padre e de pessoas privadas de misericórdia. O que fizemos e o que estamos a fazer nasce do profundo afecto colegial que nos une ao Papa, e da preocupação apaixonada pelo bem dos fiéis.

Card. Walter Brandmüller
Card. Raymond L. Burke
Card. Carlo Caffarra
Card. Joachim Meisner

(Tradução publicada no blogue Fratres in Unum no dia 14/11/2016)

O problema é que a não resposta, em si, representa uma resposta. Uma resposta terrível!

O conteúdo integral da carta pode ser lido em português no blogue: Fratres in Unum.

 

Basto 11/2016

20 thoughts on “Cardeais divulgam carta dirigida ao Papa

    • “O meu Imaculado Coração será teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus”.

      Cylláh, estou convencido de que chegámos ao momento da nossa história em que precisamos de encontrar um refúgio. A tempestade caiu sobre nós.

      • Basto, graças a Deus tem uma Igreja dedicada ao Imaculado Coração de Maria pertinho da minha casa..E todos os sábados vou na Santa Missa lá, só no Imaculado Coração de Nossa Mãe Santíssima passaremos por esta tempestade..

  1. A arrogância do jesuíta Antonio Spadaro, editor da “La Civiltà Cattolica”, na sua conta do Twitter:

    «O Papa “clarificou”. Aqueles que não gostam do que ouvem fazem de conta que não ouvem. Simplesmente leiam…» (depois deixa a ligação para a carta em que o Papa aprova e elogia os critérios dos bispos de Buenos Aires)

    Ainda no Twitter do Pe. Antonio Spadaro:

    Novo Cardeal D. Farrell: A Amoris Laetitia é “é o Espírito santo quem fala”.

    Amoris Laetitia “é obviamente um ato de magistério”.

  2. “Há, na Tradição da Igreja, a prática da correção ao Sumo Pontífice. Se não houver resposta a essas questões, então, diria que seria o caso de realizar um ato formal de correção de um grave erro”. (Cardeal Burke, 14/11/2016)

    https://fratresinunum.com/2016/11/16/ha-na-tradicao-da-igreja-a-pratica-da-correcao-ao-sumo-pontifice-se-nao-houver-resposta-a-essas-questoes-entao-diria-que-seria-o-caso-de-realizar-um-ato-formal-de-correcao-de-um-grave-erro/

    Isto parece uma situação de pré-cisma…

  3. Dois bispos polacos defendem a posição dos 4 cardeais:

    “Eles fizeram bem e exerceram corretamente as disposições do direito canónico. Eu considero não apenas um direito, mas até mesmo um dever. Seria [caso para apenas] responder às suas observações. Eles não colocaram questões sobre o estado do tempo do dia seguinte, mas sobre assuntos relacionados com o ensino da Igreja e, portanto, os fiéis.” (D. Józef Wróbel, Bispo Auxiliar de Lublin, Polónia)

    http://www.lafedequotidiana.it/vescovo-wrobel-la-amoris-laetitia-non-stata-scritta-bene/
    http://www.onepeterfive.com/polish-bishop-four-cardinals-exercised-a-duty-it-is-only-just-to-answer-them/

    “[A carta dos cardeais] é uma expressão do compromisso e preocupação no que se refere à interpretação correta do ensino de Pedro.” “[Eu próprio] espero muito de ver uma resposta, um esclarecimento,” [na medida em que] “também fiquei sobrecarregado com muitas questões semelhantes – assim como outros bispos e pastores”. (D. Jan Wątroba, bispo de Rzeszów, na Polónia, e Presidente do Conselho dos Bispos Polacos para a Família)

    http://www.onepeterfive.com/third-bishop-comes-defense-four-cardinals/
    http://www.die-tagespost.de/politik/Streit-um-bdquo-Amoris-laetitia-ldquo;art315,174099

  4. Bispo americano apoia os 4 cardeais:

    “Se o documento tem elementos que alguns académicos católicos sérios vêem como ambíguos, então as questões que eles levantam precisam de ser tratadas com honestidade e de forma direta. As diferenças e discussões que os bispos têm agora relativamente à recepção do documento são provavelmente necessárias para sua incorporação adequada na vida da Igreja.” (Arcebispo Chaput de Filadélfia, EUA)

    http://www.churchmilitant.com/news/article/abp.-chaput-supports-clarifying-amoris-laetitia

  5. Mais um cardeal em defesa da posição tomada pelos 4:

    “Como se pode discordar de uma pergunta?”, Perguntou Pell em resposta a uma questão sobre se ele concordava com as perguntas dos cardeais.

    Pell falava na Igreja St. Patrick, em Londres, quando abordou o estado atual do catolicismo e uma compreensão adequada da consciência.

    “Um número de católicos que praticam regularmente [a sua religião]” estão “preocupados com a evolução dos acontecimentos” dentro da Igreja, disse Pell, [ao constatarem] como a noção consciência individual pode ultrapassar a lei moral.

    […]

    “A ideia de que se pode, de alguma forma, discernir que as verdades morais não devem ser seguidas ou não devem ser reconhecido [é] absurda”, disse Pell. “Todos estamos submetidos a verdade”, mas a verdade objetiva pode ser “diferente da nossa compreensão [pessoal] da verdade”.
    (Cardeal George Pell, Arcebispo Emérito de Syney, Austrália)

    https://www.lifesitenews.com/news/cardinal-pell-on-dubia-how-can-you-disagree-with-a-question

  6. Mais uma declaração de apoio aos quatro cardeais foi assinada por vários sacerdotes, teólogos e académicos:

    “…nós pensamos que o contínuo silêncio do Santo Padre possa colocá-lo em situação de ser acusado de negligência no exercício do dever Petrino de confirmar os seus irmãos na Fé.”

    “Nós confiamos este grave problema ao cuidado da celestial interseção de Maria Imaculada, Mãe da Igreja e destruidora de todas as heresias.”

    “8 de dezembro de 2016, Festa da Imaculada Conceição”

    (abaixo assinados)

    • Msgr. Ignacio Barreiro Carambula, STD, JD, Chaplain and Faculty Member of the Roman Forum
    • Rev. Claude Barthe, France

    • Dr. Robert Beddard, MA (Oxon et Cantab), D.Phil (Oxon), Fellow emeritus and former Vice Provost of Oriel College Oxford.

    • Carlos A. Casanova Guerra, Doctor of Philosophy, Full Professor, Universidad Santo Tomás, Santiago de Chile

    • Salvatore J. Ciresi MA, Notre Dame Graduate School of Christendom College, Director of the St. Jerome Biblical Guild

    • Luke Gormally, PhL, Director Emeritus, The Linacre Centre for Healthcare Ethics (1981-2000), Sometime Research Professor, Ave Maria School of Law, Ann Arbor, Michigan (2001-2007)

    • Ordinary Member, The Pontifical Academy for Life, Rev. Brian W. Harrison OS, MA, STD, Associate Professor of Theology (retired), Pontifical Catholic University of Puerto Rico; Scholar-in-Residence, Oblates of Wisdom Study Center, St. Louis, Missouri

    • Rev. John Hunwicke, MA (Oxon.), Former Senior Research Fellow, Pusey House, Oxford; Priest of the Ordinariate of Our Lady of Walsingham; Member, Roman Forum

    • Peter A. Kwasniewski PhD (Philosophy,Professor, Wyoming Catholic College

    • Rev. Dr. Dr Stephen Morgan, Academies Conversion Project Leader & Oeconomus, Diocese of Portsmouth

    • Don Alfredo Morselli STL, Parish priest of the Archdiocese of Bologna

    • Rev. Richard A. Munkelt PhD (Philosophy), Chaplain and Faculty Member, Roman Forum

    • Rev. John Osman MA, STL, Parish priest in the archdiocese of Birmingham, former Catholic chaplain to the University of Cambridge

    • Dr Paolo Pasqualucci, Professor of Philosophy (retired), University of Perugia

    • Dr Claudio Pierantoni, Professor of Medieval Philosophy in the Philosophy Faculty of the University of Chile, Former Professor of Church History and Patrology at the Faculty of Theology of the Pontificia Universidad Católica de Chile, Member of the International Association of Patristic Studies

    • Dr John C. Rao D.Phil (Oxon.), Associate Professor of History, St. John’s University (NYC), Chairman, Roman Forum

    • Dr Nicholas Richardson. MA, DPhil (Oxon.), Fellow emeritus and Sub-Warden of Merton College, Oxford and former Warden of Greyfriars, Oxford.

    • Dr Joseph Shaw MA, DPhil (Oxon.) FRSA, Senior Research Fellow (Philosophy) at St Benet’s Hall, Oxford University

    • Dr Anna M. Silvas FAHA, Adjunct research fellow, University of New England, Armidale, NSW, Australia.

    • Michael G. Sirilla PhD, Director of Graduate Theology, Franciscan University of Steubenville, Ohio

    • Professor Dr Thomas Stark, Phil.-Theol. Hochschule Benedikt XVI, Heiligenkreuz

    • Rev. Glen Tattersall, Parish Priest, Parish of Bl. John Henry Newman, Archdiocese of Melbourne, Rector, St Aloysius’ Church, Melbourne

    • Rev. Dr David Watt STL, PhD (Cantab.), Priest of the Archdiocese of Perth, Chaplain, St Philomena’s chapel, Malaga

    http://www.onepeterfive.com/a-grave-and-pressing-duty-statement-of-support-for-the-four-cardinals-dubia/

  7. Dois académicos de renome enviam carta aberta a Papa Francisco:

    “Nesta carta pedimos ao Papa Francisco que condene oito posições contra a Fé Católica que estão a ser apoiadas, ou provavelmente serão, pelo mau uso da sua Exortação Apostólica ‘Amoris Laetitia’. Pedimos a todos os bispos que se juntem a este pedido e que emitam as suas próprias condenações das posições erróneas que identificamos, reafirmando os ensinamentos católicos que estas posições contradizem.”

    Signatários da carta:

    John Finnis, emeritus professor of law and legal philosophy at the University of Oxford and Biolchini Family Professor of Law at the University of Notre Dame)

    Germain Grisez, emeritus professor of Christian ethics at Mount St. Mary’s University

    https://www.firstthings.com/web-exclusives/2016/12/an-open-letter-to-pope-francis

  8. O cardeal alemão Paul Josef Cordes defende os 4 cardeais:

    “Com um tom objetivo, os quatro cardeais pediram a eliminação de dúvidas sobre o texto [Amoris Laetitia]”. “Eles foram recebidos com um protesto desproporcionado, eu não pude compreender essa indignação, eu também tinha dúvidas de que essas pessoas indignadas foram motivadas por um desejo de encontrar a verdade.” (Declarações recentes do cadeal Cordes ao serviço de notícias católico austríaco Kath.net)

    https://www.lifesitenews.com/news/breaking-german-cardinal-defends-dubia-signers-facing-indignant-attacks

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